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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A PREPARAÇÃO

Ideia na cabeça, muitas dúvidas apertando o coração, decidi começar os preparativos da viagem. Ao Marcos coube determinar tudo o que precisaria ser comprado para as bikes. A mim coube fazer as reservas e comprar todo o resto. Comida, remédios, produtos de higiene, etc.
O Marcos fez muita pesquisa e acabou definindo quais seriam nossos alforjes. Um Racktop Deuter e um Deuter Uni Rack Pack, um compartimento de 38 litros onde deveriam caber todas as nossas roupas para os 8 dias de pedal. Parece piada, mas não é. Tudo deveria caber em um alforje de 19 litros para cada um. Urght.
Além disso optamos por comprar sacos estanques. Um par na www.shoptime.com.br de 10 litros cada. Eu adquiri um de 15 litros na www.aliexpress.com.

E eu comecei as reservas. Foi um dos marcos da viagem. MUITO DIVERTIDO. Cada vez que eu falava com alguém ouvia um sotaque diferente, uma simplicidade ímpar.
Poucas foram as pousadas que demonstraram desinteresse, mas isso rolou também.
Um dos grandes marcos foi falar com a Dona Irene do Stolf Cama e Café, em Rodeio. Acabamos não ficando por lá (já conto a história), mas ela é uma pessoa muito simples, prática e com um sotaque inconfundível. Reservar com ela é a coisa mais simples que existe. Basta dar seu nome que ela anota no caderninho. Pronto.
Outra história engraçada aconteceu quando liguei para tentar reservar lugares para a gente dormir no Bar do Faustino. Nada de encontrar o endereço, mas consegui um telefone no google. Liguei lá e quem me atendeu explicou que o antigo Bar do Faustino havia fechado, e que a empresa havia herdado o mesmo número de telefone, por isso ele vivia atendendo ciclistas. Quando perguntei sobre o novo número do bar ele me disse "Ah dona, o bar fechou. Foi tombado pela prefeitura". Falou isso num tom um tanto quanto desolado. Eu perguntei, ué, o prédio é histórico então? E ele: "não dona, foi tombado. Caiu por causa da chuva e a prefeitura terminou de derrubar". kkkkkkkkkkkkkk #morri
Eis que, quando eu já havia feito parte das reservas, as da parte baixa, entrei em contato com a Hospedagem Rural Fazenda Sacramento http://www.fazendasacramento.blogspot.com.br/.
Fui informada que eles faziam a hospedagem dos ciclistas nos dias 1,3 e 7 do percurso, ou seja, dias correspondentes às estadias em TIMBÓ e RODEIO.
A Fazenda consta como hospedagem somente em Rodeio no site oficial, pois seu endereço pertence a esta cidade. Porém, como eles se encontram na metade do caminho entre Rodeio e Timbó, criaram o "pedal+leve", ou seja, hospedam ciclistas nos 3 dias e fazem os traslados para os locais do início e término do pedal nos dias correspondentes.
Assim, mesmo já tendo reservas para Timbó, o Marcos decidiu que faríamos nossa hospedagem com eles.
Resultado... levamos metade da carga, visto que estaríamos de volta à Hospedagem antes de iniciar o trajeto da parte alta. Conhecemos pessoas maravilhosas. Fomos muito bem tratados e de quebra tivemos um lindo jantar na companhia do Rui e da Ângela, donos da hospedagem. RECOMENDADÍSSIMO.

COMO TUDO COMEÇOU

O Marcos, meu marido, adorava pedalar. Aos finais de semana costumava sair com os amigos e eu acabava ficando para trás pois para mim, pedalar até a esquina, era demais.
No começo, ok. Mas depois de algum tempo cansei de ficar em casa sozinha. Casei, mas mesmo assim vivia na casa dos meus pais nos finais de semana para não ficar sozinha. Ninguém merece.
Decidi incluir a bicicleta na minha rotina para poder acompanhar o maridão nos passeios pela cidade. Na minha cabeça eu jamais conseguiria acompanhá-lo nas suas aventuras off road nos finais de semana, mas ao menos iria com ele nos passeios curtos por Curitiba.
Objetivo em mente, peguei minha singela "bike de mercado" e pus na rua. O Marcos fez uma revisão na coitada para que pelo menos algumas marchas entrassem (não que eu soubesse usá-las) e lá fui eu com destino à ciclovia perto do escritório. 2,5 km de descida leve e outros 2,5 km de subida mega leve. Moleza? Não para mim. 500 metros de subida e eu já estava ofegante.
Ok. Desisto. Vamos caminhar. E assim o fiz por alguns dias.
Eis que um belo dia o Marcos me mostra um tal de Circuito Vale Europeu de Cicloturismo http://www.circuitovaleeuropeu.com.br/
Lindo! Todo mundo falando bem! Povo simpático! Sem pensar eu disse: vamos?
Acho que o Marcos pensou que eu estava doida, sei lá. Mas numa atitude mais tresloucada ainda ele disse: quando?
Agora ferrou!
Decidido que iríamos, coube a ele o trabalho de treinar meu corpo acostumado a outros exercícios (anaeróbicos) para o pedal, com paciência. E a mim coube muita dedicação.
Eu pegava minha bike de mercado todo santo dia e ia todo dia pelo mesmo trajeto. Os mesmos 5 km que me mataram naquela primeira vez.
Horrível. Chato. Cansativo. O sentimento era de impotência.
O sofrimento deu uma diminuída lá pela quinta vez que eu fazia o trajeto. Mas era demais para mim mesmo assim.
E o Marcos começou a me acompanhar. "Carol, agora você precisa girar a mão esquerda para trocar a marcha. Agora ajusta na direita". E eu grunhindo. Xingando ele até a quinta geração.
"Ok, agora é só girar, deixa na marcha leve e gira sem fazer esforço". Aí eu xingava até a décima geração. Sem fazer esforço??? Eu estava morrendo!
Adendo importante. Ciclistas experientes esquecem que no começo não era "só girar". Isso não existe para quem não tem fôlego nem força. Só girar não é explicação que se preze. Faz favor de se lembrarem do seu começo e falarem algo que preste. Tipo: no começo é difícil, mas você vai achar seu ritmo. Só girar non ecziste!
Continuando....
Mas ele não desistiu de mim. E nem eu.
"Vou te levar no Pedala Curitiba. Hoje o trajeto é fácil. 15 km".
Hã?
"Ok amor, com prazer". Grrrrrrrrrrrrr
E o coitado me empurrava. E ouvia xingamento. E eu cuspia fogo.
Na semana seguinte: "vamos de novo?"
Eu pensei: meu o cara é doido mesmo.
"Claro amor". Grrrrrrrrrrrrrrrrrr
E assim foi, por um mês.
Ao final deste mês, percebendo que, apesar das dificuldades, eu estava mesmo empenhada, meu amor me presenteou com uma bike, no dia das crianças, 12 de outubro de 2013.

Neste ponto eu estava pedalando há um mês e nós iríamos viajar no início de janeiro. Ou seja, eu tinha menos de 3 meses para me preparar para o circuito.
Não vou dizer que foi fácil. Às vezes eu colocava o tênis e pensava: tortura de novo.
Sair sozinha era mais difícil, mas mesmo tendo o Marcos para eu me sentir segura, eu passei mal. Tinha crises que mais pareciam asma.
E agora? Procurar um médico.
Descobri uma obstrução no nariz e tive que fazer uma cirurgia. 15 dias de treinamento perdidos na recuperação.
Fiquei receosa, com medo de falhar. Mas sempre que eu esmorecia, o Marcos estava do meu lado dizendo: você consegue.
Topei fazer um pedal com ele de 30 km. Meu maior desafio até então.
Foram 16 km de muito sol, cansaço e sofrimento físico. Desisti. Assumi a derrota naquela batalha.
Mas continuei o treinamento.
Eis que surge um pedal que eu já tinha feito uma vez. Tínhamos ido a São José dos Pinhais de carro e lá pedalamos com o grupo. Só que desta vez iríamos até São José dos Pinhais pedalando. Será???
Fui. E fui com vontade. Sofri, óbvio. Meu treinamento sempre foi um ciclossofrimento.
Mas consegui.
E fui de novo. 76 km pedalando na Lapa.
E consegui de novo.
Com o currículum "recheado" pela fortuna de DOIS pedais longos eu estava pronta para cumprir os 327 km do Vale Europeu. 
Estava mesmo?