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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

COMO TUDO COMEÇOU

O Marcos, meu marido, adorava pedalar. Aos finais de semana costumava sair com os amigos e eu acabava ficando para trás pois para mim, pedalar até a esquina, era demais.
No começo, ok. Mas depois de algum tempo cansei de ficar em casa sozinha. Casei, mas mesmo assim vivia na casa dos meus pais nos finais de semana para não ficar sozinha. Ninguém merece.
Decidi incluir a bicicleta na minha rotina para poder acompanhar o maridão nos passeios pela cidade. Na minha cabeça eu jamais conseguiria acompanhá-lo nas suas aventuras off road nos finais de semana, mas ao menos iria com ele nos passeios curtos por Curitiba.
Objetivo em mente, peguei minha singela "bike de mercado" e pus na rua. O Marcos fez uma revisão na coitada para que pelo menos algumas marchas entrassem (não que eu soubesse usá-las) e lá fui eu com destino à ciclovia perto do escritório. 2,5 km de descida leve e outros 2,5 km de subida mega leve. Moleza? Não para mim. 500 metros de subida e eu já estava ofegante.
Ok. Desisto. Vamos caminhar. E assim o fiz por alguns dias.
Eis que um belo dia o Marcos me mostra um tal de Circuito Vale Europeu de Cicloturismo http://www.circuitovaleeuropeu.com.br/
Lindo! Todo mundo falando bem! Povo simpático! Sem pensar eu disse: vamos?
Acho que o Marcos pensou que eu estava doida, sei lá. Mas numa atitude mais tresloucada ainda ele disse: quando?
Agora ferrou!
Decidido que iríamos, coube a ele o trabalho de treinar meu corpo acostumado a outros exercícios (anaeróbicos) para o pedal, com paciência. E a mim coube muita dedicação.
Eu pegava minha bike de mercado todo santo dia e ia todo dia pelo mesmo trajeto. Os mesmos 5 km que me mataram naquela primeira vez.
Horrível. Chato. Cansativo. O sentimento era de impotência.
O sofrimento deu uma diminuída lá pela quinta vez que eu fazia o trajeto. Mas era demais para mim mesmo assim.
E o Marcos começou a me acompanhar. "Carol, agora você precisa girar a mão esquerda para trocar a marcha. Agora ajusta na direita". E eu grunhindo. Xingando ele até a quinta geração.
"Ok, agora é só girar, deixa na marcha leve e gira sem fazer esforço". Aí eu xingava até a décima geração. Sem fazer esforço??? Eu estava morrendo!
Adendo importante. Ciclistas experientes esquecem que no começo não era "só girar". Isso não existe para quem não tem fôlego nem força. Só girar não é explicação que se preze. Faz favor de se lembrarem do seu começo e falarem algo que preste. Tipo: no começo é difícil, mas você vai achar seu ritmo. Só girar non ecziste!
Continuando....
Mas ele não desistiu de mim. E nem eu.
"Vou te levar no Pedala Curitiba. Hoje o trajeto é fácil. 15 km".
Hã?
"Ok amor, com prazer". Grrrrrrrrrrrrr
E o coitado me empurrava. E ouvia xingamento. E eu cuspia fogo.
Na semana seguinte: "vamos de novo?"
Eu pensei: meu o cara é doido mesmo.
"Claro amor". Grrrrrrrrrrrrrrrrrr
E assim foi, por um mês.
Ao final deste mês, percebendo que, apesar das dificuldades, eu estava mesmo empenhada, meu amor me presenteou com uma bike, no dia das crianças, 12 de outubro de 2013.

Neste ponto eu estava pedalando há um mês e nós iríamos viajar no início de janeiro. Ou seja, eu tinha menos de 3 meses para me preparar para o circuito.
Não vou dizer que foi fácil. Às vezes eu colocava o tênis e pensava: tortura de novo.
Sair sozinha era mais difícil, mas mesmo tendo o Marcos para eu me sentir segura, eu passei mal. Tinha crises que mais pareciam asma.
E agora? Procurar um médico.
Descobri uma obstrução no nariz e tive que fazer uma cirurgia. 15 dias de treinamento perdidos na recuperação.
Fiquei receosa, com medo de falhar. Mas sempre que eu esmorecia, o Marcos estava do meu lado dizendo: você consegue.
Topei fazer um pedal com ele de 30 km. Meu maior desafio até então.
Foram 16 km de muito sol, cansaço e sofrimento físico. Desisti. Assumi a derrota naquela batalha.
Mas continuei o treinamento.
Eis que surge um pedal que eu já tinha feito uma vez. Tínhamos ido a São José dos Pinhais de carro e lá pedalamos com o grupo. Só que desta vez iríamos até São José dos Pinhais pedalando. Será???
Fui. E fui com vontade. Sofri, óbvio. Meu treinamento sempre foi um ciclossofrimento.
Mas consegui.
E fui de novo. 76 km pedalando na Lapa.
E consegui de novo.
Com o currículum "recheado" pela fortuna de DOIS pedais longos eu estava pronta para cumprir os 327 km do Vale Europeu. 
Estava mesmo?

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